Se o povo vota mal é porque é mal informado

No passado, em pleno regime autoritário, Pelé dizia que o povo não sabia votar, pois nem sequer sabia escovar os dentes. Lembro que na época fiquei indignado com as declarações do maior craque de futebol de todos os tempos. Hoje, já com muitos anos de estrada, revejo o conceito. Apenas acrescento que, se vota mal – no que em parte agora concordo, é proque é mal informado, não dispõe da verdade para avaliar os candidatos que se apresentam e disputam o sufrágio popular.

Veja-se o que acontece em relação aos possíveis candidatos a presidente da República. Segundo pesquisa do Datafolha, Lula da Silva e Jair Bolsonaro lideram as sondagens eleitorais, com o deputado-militar estabilizado em segundo lugar. Lula surge com 36% em todos os cenários, enquanto Bolsonaro gira entre 17 a 19%. Com o ex-metalúrgico fora do páreo, o militar alcança algo em torno de 33%, percentual significativo. Destaque-se que o representante da extrema direita atinge seus melhores índices dentre eleitores jovens, na faixa entre 16 a 24 anos, vítimas maiores da recessão da economia, segundo o mesmo Instituto.

Diante desses resultados, há fatores e elementos que merecem reflexão mais acurada. Como explicar os índices elevados que premiam Lula? Afinal, ele, o PT e sua pupila, Dilma Rousseff, quebraram o país, destruíram a economia e fizeram o Brasil mergulhar na recessão que levou ao infortúnio 14 milhões de desempregados. Com a gerentona do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, lembram?, no mais absoluto e merecido ostracismo, tem-se certo apagão na memória coletiva. De mais a mais, as trapalhadas éticas e os crimes do governo Michel Temer e de sua trupe fazem com que grande parte de todas as desgraças nacionais sejam contabilizadas na conta da gestão peemedebista. Ressuscitaram-se, assim, as chances de Lula na corrida presidencial, ainda que de forma transitória, porquanto na campanha a herança nefasta do lulopetismo virá à tona em todas as suas dimensões.

Na outra ponta, em contraposição à esquerda radical, mais uma vez incorporada por Lula, na linha de suas primeiras derrotas, aparece Jair Bolsonaro, que tem teto ou limite de crescimento, onde tudo indica que já chegou. Embora em campos opostos, há fortes liames entre o discurso e a prática de ambos, marcados pela intolerância. O estado máximo, sufocante e monopolizador, encanta o programa e as propostas dos dois candidatos, ancorados numa visão retrógrada do desenvolvimento econômico e social. As posições políticas de Lula e do PT guardam muita identidade com atos, ações e manifestações de Bolsonaro no Congresso Nacional, em votações fundamentais para o futuro da Nação, como já demonstramos neste espaço. Eles se retroalimentam, um dá ao outro razão de existência política, em posições ideológicas polarizadas, tendo-se que a falência do petista levará ao insucesso do militar e vice-versa.

Sobre esses fatos e sobre a atuação de cada um deles a população não recebe as informações corretas. Deixa-se iludir por mensagens enganosas e não percebe com a clareza necessária o papel que realmente desempenham no momento político do país. Somente assim pode-se explicar as pesquisas do Datafolha. Espelham o presente e sofrerão grande reviravolta ao longo do processo eleitoral, sobremodo porque quem hoje conhece Lula e Bolsonaro neles jamais votará.

paulofigueiredo@uol.com.br

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