Raízes do nosso Batista – crônica para um velho e querido amigo

Faz-se noite de um dia pleno. Ligo o som e nele encontro a voz de Antônio Batista, expressão de muitos encontros mergulhados ao longo tempo. Para quem consegue vê-lo inteiro, como amigo dos mais estimados, Batista, apenas Batista. Nele reconhece-se logo um talento que comove na tradução do que há de expressivo e melhor em sua gente simples.

 

Encontrou o mundo em Itacoatiara, em cujas raízes deitaria para sempre a existência. Nela, como em todos nós seus conterrâneos, a ternura e o encantamento dos primeiros anos e dos amores inaugurais, paixão cultivada com desvelo, ancha e irrenunciável. No chão da cidade, em seus prédios históricos e em suas ruas mansas do passado distante, assumiu responsabilidades profissionais, que o fariam desfrutar de uma vida exitosa, em período de raras oportunidades.

 

Tornou-se, desde muito cedo, espécie de ‘self-made man’, senhor de uma carreira no Banco do Brasil, como prêmio de uma realização pessoal, à época das mais valorosas. Na instituição, cumpriu extenso caminho, e hoje volta-se com exclusividade para o que realmente marcou seus passos adolescentes, a música, a voz e o violão. Inseparáveis, ao longo de mais de oito décadas, há neles uma comunhão profunda, exteriorizada via interpretações raras.

 

Batista, canta, compõe e toca, com estilo somente seu, inconfundível. No recheio de suas escolhas, uma definição de obras clássicas da música popular, como espelho e opção de sua geração e de tantas outras, todas identificadas pelo bom gosto, com delicada sensibilidade. Comove-me a voz e a seleção. Com elas retorno às noites da minha terra, madrugadas adentro, tomadas da mais intensa claridade e embriagadas pelo frescor da juventude, prenhe de incontida beleza.

 

Além de intérprete, Batista avançou, como autor, como compositor. E veio-lhe de pronto a homenagem maior. Nada mais, nada menos, dedicada à sua Itacoatiara, com Raízes, canção que enternece pela poesia afetuosa diante de suas origens telúricas. Mãe carinhosa – Raízes, no sentido de ligação profunda com suas próprias estruturas orgânicas, dá nome ao seu disco mais recente, integrando-se ao rol de composições definitivas que marcam a história da música no Brasil.

 

Há certa ingenuidade na letra e na disposição melódica de Raízes. No entanto, ainda que intencional ou não, ao invés de comprometê-la, serve para valorizá-la ainda mais, na pureza característica do que deve ser realmente singelo, como manifestação da alma e de sentimentos não cerimoniosos do autor.

 

Ouço, sempre que posso, o nosso Batista, com grande prazer. E com ele faço sempre uma viagem de retorno, gratificado, em torno de laços comuns e amados com a nossa Velha Serpa.

 

paulofigueiredo@uol.com.br

 

 

 

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