Prefeitos viajantes

Há uma onda de prefeitos de capitais no Brasil em viagens pelo mundo. A maioria ou quase totalidade viaja por conta de seus respectivos erários. Numa reportagem da Band FM/RJ, apurou-se que, com exceção dos prefeitos de Porto Alegre e Vitória, a farra é grande, custeada pelo esfolado contribuinte e munícipe.

Em artigo publicado na Folha de São Paulo, sob o título “Prefeito viajandão vai à China, mas não a Santa Cruz”, o jornalista Álvaro Costa e Silva critica as viagens do prefeito Marcelo Crivella. O alcaide, segundo o articulista, que já esteve na Holanda, Rússia, Emirados Árabes, Israel, Estados Unidos, África do Sul e China, não consegue chegar aos distantes bairros de Santa Cruz e Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Com ironia, aproveita a ocasião e aconselha-o a ler dois cariocas fundamentais, Machado de Assis e Nelson Rodrigues, como “leitura civilizatória”, que não conseguiam afastar o pé de sua cidade.

Enquanto isso, a desordem urbana toma conta do Rio, com vias e bairros degradados, como lembra o mesmo articulista. Destacou o drama das calçadas de Copacabana invadida por camelôs e do tradicional restaurante Albamar, atual Ancoramar, que deve fechar as portas, ameaçado por uma cracolândia que se instalou em frente ao estabelecimento. Parou por aí, mas bem que poderia desfilar um rosário de agressões à face da cidade, outrora bela e encantadora.

Como Manaus não poderia ficar de fora, o prefeito Arthur Virgílio Neto segue na mesma linha. Foi a Bangkock, na Tailândia, e a Bonn, na Alemanha, acompanhado de numerosa entourage, após tantas outras viagens antes realizadas ao exterior. Vejam os leitores o que a internauta Socorro Santos perguntou ao prefeito no Facebook: “Esse gasto de ‘turismo’ com a primeira-dama e outros é pra ficar no papel como aquele quando o senhor viajou para o exterior com uma turma dizendo que era pra copiar um projeto de transporte igual ao que já tem em Curitiba? Estou cansada de tantas promessas”. Em resposta, veio o prefeito: “Todos os custos da viagem, que foi um convite, foi (sic) pago pelo Banco que realizou o convite”. Ainda insatisfeita, Socorro Santos, deixando de lado questionamentos sobre diárias e outras despesas certamente suportadas pelo Município, observou: “Foram pagos (pelo mesmo Banco) também os custos dos acompanhantes”. Sobre esta última indagação, nenhuma resposta, embora entenda-se que a população merece receber as explicações solicitadas ao administrador da cidade. Portanto, resta ao leitor tirar suas próprias conclusões.

Manaus, como o Rio de Janeiro, experimenta uma situação aflitiva e de extrema dificuldade em todos os setores da vida da urbe. Do trânsito caótico ao sistema de recuperação de vias públicas e calçadas, estas em grande parte inexistentes, não há um único segmento da administração que possa ser considerado como minimamente satisfatório ou regular. Tem-se a expressão do desastre urbano e em muitos anos de gestão tucana não há uma obra de vulto, uma marca que evidencie o trabalho efetivo da Prefeitura em benefício dos habitantes da cidade.

No caso do aproveitamento do igarapé do Mindu, em vários artigos defendi a utilização de suas águas, com nascente preservada, como corredor navegável de transporte de massa, através de um sistema de barcos ou lanchas. Chegamos a criar uma sociedade de amigos do Mindu, com a participação de Gladston Saraiva, amigo sempre lembrado e estudioso dos desafios urbanos da cidade. No entanto, já à época, reconhecíamos que qualquer projeto nesse sentido demandaria uma soma de recursos fantásticos, impossíveis de serem suportados pela municipalidade, em decorrência das construções regulares e irregulares edificadas ao longo das margens do igarapé. Trata-se, portanto, de um sonho irrealizável, especialmente agora, em momento de crise profunda que alcança o país e a Zona Franca de Manaus.

A verdade é que se a Prefeitura conseguisse fazer pelo menos o feijão com arroz do dia a dia, já avançaríamos muito, tratando o gasto público com moderação e competência, nestes tempos bicudos. A desorganização salta aos olhos, numa Manaus intumescida e de crescimento profundamente desordenado nos bairros periféricos. Não se tem sequer como resistir às grandes chuvas, que provocam alagamentos, levando ao fundo uma ponte recém construída pela municipalidade, ao preço exorbitante de mais de um milhão de reais.

Nem a antiga Praça da Matriz, que no passado foi um símbolo dos mais significativos da cidade, foi recuperada em obediência às suas características originais, repetindo-se os mesmos equívocos que ocorreram no projeto da Avenida Eduardo Ribeiro.

Não é como alabama que o prefeito, a poucos meses do encerramento do mandato, caso venha a disputar o governo do Amazonas ou o Senado, como se anuncia, resolverá os angustiantes problemas de Manaus. O que falta? Com a palavra os leitores, que responderam indignados às inquietações de Socorro Santos, em páginas do Facebook.

paulofigueiredo@uol.com.br

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