Ópera-bufa no país do pastelão

Lá atrás, um petista foi flagrado com dólares na cueca, no aeroporto de São Paulo, pronto para viajar a Fortaleza. O dito-cujo era chefe de gabinete do deputado estadual cearense José Guimarães. Os dólares foram perdidos e não se tem notícia do que aconteceu com quem os transportava. Sabe-se apenas que Guimarães, irmão de José Genoíno, ex-presidente do PT e ex-guerrilheiro do Araguaia, condenado no processo do Mensalão, foi eleito deputado federal e assumiu a liderança do partido na Câmara.

O deputado Celso Jacob (PMDB/RJ) é agora apanhado com queijo provolone e biscoitos também na cueca. Será certamente muito difícil partilhar as iguarias com seus colegas de infortúnio, com temperos tão insólitos. Bem, foi flagrado ao retornar ao presídio da Papuda, vindo de expediente diário que cumpria como parlamentar na Câmara Federal. Recolhido de castigo e aos costumes em cela individual, ficou impedido de comparecer aos trabalhos legislativos. É incrível. Somente assim rompe-se uma rotina somente possível no Brasil, que permite que um deputado condenado pelo Supremo Tribunal Federal continue a desempenhar funções de representante do povo brasileiro, sem qualquer empecilho funcional, ético e moral.

Como se não bastasse, com três ex-governadores e dois ex-presidentes da Assembleia do Rio de Janeiro presos pela Lava-Jato, vem o notório Antony Garotinho e diz que foi agredido na cadeia de Benfica. Alega ter sido atingido com taco de beisebol, madrugada adentro. Descreve o agressor, mas nenhuma das câmaras da ala onde se achava preso registrou a presença de qualquer pessoa, fato que conduz à conclusão de que se autolesionou. Há precedentes no comportamento burlesco de Garotinho, que autorizam as autoridades carcerárias a concluir pela hipótese de ardil, robustecida pela total ausência de cenas filmadas no corredor prisional. O ex-governador, em ocasiões anteriores, apresentou-se acometido de mal súbito, esbravejando histérico em macas e ambulâncias, ou com enfermidades imaginárias que lhe permitissem sair da situação em que se encontrava. Ridículo, punido pelo simulacro, expia a culpa em Bangu 8, em companhia de criminosos perigosos, tanto quanto.

Esses procedimentos, somados às trapaças de Sérgio Cabral na compra e instalação de uma televisão cinematográfica e de um “home theater” no interior da prisão, bem como na aquisição de produtos alimentícios de consumo proibido na cadeia, revelam um país de pastelão, tragicômico, indigno dos brasileiros. Na esteira, Antônio Carlos Rodrigues, presidente nacional do Partido da República – tinha que ser da República? –, encontra-se com prisão decretada. Foragido da polícia e mascarado, salta em horas mortas de telhado em telhado e de quintal em quintal. Há também quem, sob os influxos da mais ensandecida alucinação, sai por aí anunciando quimérica candidatura a presidente, com vice indicado sem sequer ser consultado. Bufonaria absoluta, um delírio fantástico, que sugere a concessão do laurel cara de pau.

Apesar dos pesares, com a Lava-Jato e operações correlatas, ainda podemos alimentar esperanças, embora estejam sob permanente fogo cruzado, orquestrado nos desvãos dos três poderes da República. Conforta testemunhar que figuras até então inatingíveis e inimputáveis amargam o cárcere, como acontece com o maior empresário do Brasil, ex-presidentes da Câmara dos Deputados, ex-ministro da Fazenda e tipos outros de proeminência na recente história política do país.

Mas, como se vê, a trupe não toma jeito, ameaça, manipula, resiste e avança. Até quando?

paulofigueiredo@uol.com.br

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