O russão

                           Um dia qualquer ele apareceu. Dizia-se russo de Tsarskoye Selo, descendente dos Romanovs, bisneto do último dos tzares, de Nicolau II, assassinado pelos bolcheviques em 1917, com toda a família, crime que chocou o mundo. Ora seu pai fora filho de Tatiana, ora de Olga, conforme a ocasião, fruto do amor clandestino com seu avô paterno, o conde Anatole, o maior proprietário rural de todas as Rússias.

Era um contador de histórias e apresentava-se como vítima da crueldade dos comunistas, dos quais seu pai escapara por milagre, sob a proteção da ama de leite, numa das fazendas de seu avô, perdida nas lonjuras dos Montes Urais. Tinha de cor e salteado a árvore genealógica da dinastia Romanov-Holstein-Gottorp, desde o início do século XVIII, que declamava nome a nome, até chegar à imolação dos últimos descendentes, em Ekaterimburgo. Impressionava com seus dramas, em narrativas que o deixavam com os olhos lacrimejantes e levemente intumescidos.

Bem, veio dar com os costados no coração da Amazônia continental, sem que jamais tenha explicado a alguém como aqui chegou e quais as razões que o haviam trazido a uma região tão distante de suas origens. Alto, quase dois metros, e magro, fino, dava impressão de que fora esticado, olhos verde-garrafa e cabelos louros, bastante claros. Assim é que foi chegando, diferente, naquele universo de gente miúda, uma estampa que logo chamava atenção de quem nela pusesse os olhos.

No dia seguinte, já batia às portas do principal jornal local, em busca de um anúncio gratuito para cursos de línguas que se dispunha ministrar a domicílio. Conseguiu e na edição subsequente lá estava a chamada, no topo da reduzida página de classificados, do tipo, ‘ensina-se em casa: alemão e russo, tratar na portaria deste matutino, diariamente, de 11:00 às 13:00 hs., através de um sistema, rápido, eficiente e barato’.

Nem é preciso dizer que ninguém acorreu ao anúncio, mesmo porque ninguém naqueles tempos poderia se interessar pelo aprendizado da língua alemã, com a Alemanha em baixa, derrotada na Segunda Grande Guerra, e muito menos pelo russo, terra de ateus, perseguidores da Igreja e de Cristo. A exceção ficou por conta de dois estudantes, boêmios, esquerdistas, únicos a se apresentar ao nobre Romanov, à procura do aprendizado dos dois idiomas. Dali, desde logo hipnotizados pelo jeito e pelo porte do professor, já saíram direto para o bar da esquina, mesa de três, muito conversa e muita vodka, da marca Eristow, cuja fórmula, segundo o russo, havia sido desenvolvida pelo príncipe Alexandrovich, um de seus ancestrais. A partir da segunda dose já preparava o drinque Anastasia, uma mistura de vodka com cachaça, que servia para substituir o brande de laranja, juntamente com o licor disponível na ocasião. Tudo foi feito com a invejável habilidade de um experiente ‘barman’, ao mesmo tempo em que se atribuía a invenção do coquetel, que criara em Paris e com o qual se sagrara vitorioso num campeonato de manipulação de destilados europeus.

Depois daquele primeiro encontro, emendaram os três juntos, semanas e meses, em farras sucessivas e projetos mirabolantes. De início, pensaram em explorar ouro no Jauaperi, afluente do Rio Negro, no coração de uma aldeia indígena, onde o metal aflorava abundante, em braços rasos de pequenos igarapés. O diabo é que o russo tinha um medo danado de índio e num de seus porres havia-se confessado vítima dos peles vermelhas, história esquisita e com geografia estranha, de todo inverossímil, mas que intencionalmente passou desapercebida ou foi imediatamente esquecida, afinal de contas convinha acreditar em tudo o que o russo dissesse. Surgiu também a expectativa de um grande golpe do baú, via casamento com a filha do maior industrial da cidade, talvez único, com quem já estivera num almoço, na residência do judeu, em homenagem a seus antepassados e à sua situação de vítima potencial do regime comunista soviético.

A possibilidade do casamento rico encheu todos de entusiasmo e os dois estudantes já se viam tocando os negócios do sogro do russo, na condição de diretores de suas empresas ou mesmo gerenciando alguns de seus negócios, na capital e mesmo no interior. Já conseguiam ver os cifrões e o tilintar das caixas registradoras, sonho que preenchia a desesperança de suas vidas, quase sempre vazias, naquele mundo perdido e triste. O russo alimentava a ansiedade dos amigos, já inseparáveis, ao se referir aos olhares lânguidos e sedutores que a única filha do industrial lhe lançava a todo momento. Tinha certeza e proclamava que tudo seria logo resolvido e arriscava inclusive o convite para que ambos apadrinhassem a união iminente.

Devoto de São Nicolau, a ele fazia promessas extravagantes, impossíveis de serem cumpridas, como a de construir uma capela no coração da Sibéria em deferência ao santo, em plena vigência do regime comunista, contanto que fosse atendido no desejo de casar com a filha do milionário amazonense. Sustentava, com o álcool já lhe toldando completamente o juízo, que daria seu jeito, enfim, tinha como realizar o projeto, mesmo sob as barbas de Lênin. Ao futuro sogro, invertia a história e contava que seu pai havia se indisposto com toda a Dinastia Romanov, ao se opor aos pogroms antissemitas. Confessava-se admirador profundo das verdades contidas na Torá e revelava sua disposição de converter-se a qualquer momento ao judaísmo, tamanha a ansiedade em conquistar o maior troféu de sua vida.

Chamado à casa do sogro de seus sonhos, lá encontrou um judeu de longa ascendência eslava, proprietário de uma grande empresa importadora de produtos amazônicos sediada em Londres. Foi o suficiente. Perdeu então, de um só golpe, os antepassados, as esperanças e o tão almejado casamento. Tudo foi por águas abaixo, numa só torrente, grossa correnteza, e ali nunca mais voltou, nunca.

Semanas mais tarde, numa demonstração de seu passado olímpico – propalava-se campeão de natação em três olimpíadas –, à exclusiva platéia formada pelos dois amigos, ao atravessar a nado o maior igarapé da cidade, faleceu, morte súbita, infarte fatal. O catraieiro não teve tempo de lhe prestar o menor socorro, já o retirou morto do rio. Foi sepultado como indigente no Cemitério de São Raimundo, em ato testemunhado pelo coveiro, os dois estudantes e um violonista, levado especialmente para a ocasião, que dedilhou os acordes de Noites de Moscou, em homenagem ao senhor do Volga.

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