O pescador do Mindu

Raimundo do Brejo, migrante, 22 anos, natural de Brejo Santo, Ceará. Veio para Manaus com armas e bagagens. Na verdade, sem armas nem bagagens, porque nada trouxe, simplesmente porque nada tinha. No surrado matolão, apenas muita esperança, um ânimo danado de viver aqui para sempre. Afinal, lá nas suas bandas, de vez em quando, recolhia causos de conterrâneos vitoriosos no Amazonas.

Depois de uma viagem cheia de atropelos, chegou. No primeiro dia, ficou perambulando pela cidade, meio sem destino, nas cercanias do porto e do velho mercado municipal. Como a miséria e a dor aproximam as pessoas, Raimundo logo encontrou quem lhe indicasse a invasão do Rio Piorini, onde poderia dividir um barraco qualquer com outra vítima do infortúnio brasileiro.

Foi tiro e queda, encontrou-se sem demora instalado sob uma precária cobertura de plástico negro, apoiada em quatro varas de pau doido da mata. Otimista, com seu principal problema resolvido, saiu à procura de trabalho. Sem um níquel para o ônibus, enfrentou uma longa caminhada de volta à cidade, onde esperava obter o primeiro emprego.

Analfabeto, sem qualificação profissional, um pouco atoleimado, feio e andrajoso, bateu de tapume em tapume das muitas obras da construção civil em Manaus. Servente, ajudante, pau pra toda obra, era o que procurava, enfim, um trabalho que não exigisse experiência anterior. Depois de uma semana de idas e vindas, de muitas tentativas, não teve êxito. Faria qualquer negócio, toparia qualquer salário, contanto que lhe trouxesse alguma moeda para o bolso vazio e para a vida, que não podia mais esperar tanto.

Já próximo do desespero, cruzou com o Passeio do Mindu, em torno do qual também estão sendo construídos alguns prédios de apartamento. Mais uma investida infrutífera. Aí, olhou para o leito do igarapé, ora cor de lama, ora cor de esgoto, e lembrou de seus tempos de apanhador de goiamuns no brejo. Viu o borbulhar fétido das águas, avaliou suas margens mal cuidadas e achou que dava para tentar.

No outro dia, bem cedinho, munido de uma rede improvisada, recolheu um bom paneiro de acari-bodó, até o talo de cascudo, como o peixe é chamado na sua terra. Escovou muito bem os bichos enlameados e fez a feira ali perto, no Parque 10. Não sobrou um.

Tinha descoberto o filão da sobrevivência. Foi no Mindu, onde faço minhas caminhadas matinais, que o encontrei e ouvi sua história. O pescador Raimundo do Brejo tem o sobrenome do presidente Lula, como milhões de tantos outros “silvas” perdidos pelo País afora. Não sabe até quando será possível continuar pescando no Mindu, no grande esgoto a céu aberto do Mindu. Enquanto isso, enquanto a saúde pública (?) não aparece, vai tocando a vida, que vida, Piorini-Mindu, Mindu-Piorini. Até quando, meu Brasil varonil?

paulofigueiredo@uol.com.br

 

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