O Armando, sua cidade, suas memórias *

Não compareci ao lançamento do livro do meu querido amigo Armando de Menezes, “O velho Tude”, na sede da Academia Amazonense de Letras. Não estava em Manaus e assim não tive oportunidade de abraçá-lo na ocasião. Alguns dias depois, recebi a obra em minha residência, com generosa dedicatória do autor.

Armando é uma bela alma. Feito de muita ternura, cativa pela afabilidade quem com ele convive ou quem dele se aproxima. É uma figura humana rara, aqui nesta mui amada cidade, que teima em se distanciar das melhores tradições históricas de seus tempos de província.

Na Manaus do escritor reencontramos exatamente o clima e os sabores perdidos dessa época que alguns poucos ainda retém nas lembranças do passado. A partir da moldura da família, “A Família Menezes”, denominação de uma de suas obras, Armando chega aos amigos e à cidade. Descreve o ambiente do lar numeroso, de uma dezena de irmãos, e nele inclui todos aqueles que passaram pela porta da casa do “velho” Tude e de dona Santa, seus pais amorosos. Mas, em todas as suas narrativas, tem-se sempre a cidade como pano de fundo, na pequena dimensão de seus quase 100.000 habitantes.

Tem-se um verdadeiro caleidoscópio urbano e sensível de Manaus, de seus primeiros bairros, de suas ruas estreitas, das casas de arquitetura portuguesa, de seus igarapés centrais de águas translúcidas, das famílias e das pessoas cujas referências então empolgavam a sociedade amazonense. Por exemplo, nas averbações feitas no diploma de nomeação do “velho” Tude, como Coletor de Rendas do Estado, reproduzido na obra em fac-símile, há uma sucessão de nomes conhecidos, do Diretor do Tesouro ao Secretário Geral do Estado, que hoje apenas fazem parte dos registros históricos da região.

A obra, como nos revela o próprio título, é também uma reunião de amigos, ora através da transcrição de artigos assinados na imprensa local, ora homenageados pelo autor, numa reflexão sobre o espaço e o tempo durante determinado período da vida do Estado. Há, por isso mesmo, muito da memorialística amazonense em Armando de Menezes, como expressão de acontecimentos de outrora, sem dúvida nenhuma significativos para uma melhor compreensão do presente.

A propósito, não estamos órfãos de memorialistas, especialmente em relação a Manaus. Nesse gênero literário despontam as páginas de Mavignier de Castro, Genesino Braga, Jefferson Péres e Thiago de Mello, este último, nosso poeta maior, senhor dos mais belos e libertários sonhos do povo brasileiro, por sinal, merecedor de todas as honras do autor, ambos da mesma geração. Nessa linha, com o fulgor de seu incontestável talento, creio que o nosso Armando inscreve-se definitivamente dentre os melhores que já escreveram sobre a cidade e sua gente.

* Armando Menezes faleceu este ano de 2017, cercado pelo carinho de seus familiares e amigos.

                                    paulofigueiredo@uol.com.br

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