Nas raias da insensatez

                                    Paulo Figueiredo

A Santa Casa de Misericórdia de Manaus dá seus últimos suspiros, nos estertores da morte, uma morte que vem sendo anunciada há anos. Logo, deverá deixar de existir de vez, caso nenhuma medida seja adotada para salvar a instituição. Sepulta-se, assim, boa parte da história da medicina no Estado, evidenciada pela atuação de médicos abnegados, do passado e do presente.

É incrível, mas com poucos recursos impediríamos a ruína definitiva um hospital secular que durante longa existência prestou relevantes serviços à população, enquanto, na outra ponta, não se tem o menor pudor na gestão do gasto público, marcada quase sempre pelo desperdício, em setores não prioritários da administração. Desde logo, uma indagação elementar se impõe: quanto vale a Santa Casa, o conjunto arquitetônico que compõe a própria história da cidade de Manaus, com prédios, instalações, corpo de servidores experientes e outros valores intangíveis? Será que hoje é possível construir tudo isso com importância que não ultrapassasse o tamanho da dívida? É claro que não. Somente o valor material dos bens de propriedade da instituição, especialmente numa relação custo-benefício, justifica qualquer investimento do poder público.

Mas no Brasil ninguém vê a questão sob esse ângulo ou enfoque. O importante é levantar o prédio e cortar a fita de inauguração, com discursos empolados, típicos de políticos subdesenvolvidos, independente de outros interesses, nem sempre confessáveis. Veja-se o volume de esqueletos de obras inconclusas nos quatro cantos da cidade, um retrato duro e sem retoques do esbanjamento irresponsável. É nesse ambiente de insensatez que a Santa Casa agoniza e ninguém move uma palha para recuperar um dos mais caros patrimônios do povo amazonense.

paulofigueiredo@uol.com.br

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