Lições das urnas em Manaus

Um arguto analista político, leitor do Blog do PF, diz que o senador Eduardo Braga comete com frequência grandes erros, independente de seus acertos. Cita vários exemplos, desde sua primeira campanha ao governo do Amazonas, quando perdeu a eleição para Amazonino Mendes, cuja reprodução seria tediosa.

Ficando apenas nos mais próximos, como na recente campanha para a Prefeitura de Manaus, o equívoco cometido por Braga pode revelar-se fatal, um caminho sem volta. O candidato do PMDB, inoficialmente já lançado, era o deputado federal Marcos Rotta, que terminou candidato a vice, por conta de acordo celebrado com o prefeito Arthur Neto.

Rotta vinha bem posicionado nas pesquisas e tinha um fantástico potencial de crescimento, por suas condições pessoais. Com boa presença, retórica afirmativa e manejo inteligente das palavras, logo alcançaria a liderança na corrida eleitoral, notadamente como candidato de oposição ao prefeito. A cidade esperava ansiosa por um discurso alternativo e crítico à administração municipal, extremamente vulnerável, pela gestão insatisfatória, onde nada vinha funcionando a contento.

Tinha-se um rol tão amplo de deficiências na Prefeitura, que catapultariam qualquer candidato ao ápice da disputa, contanto que exploradas com competência e talento. O quadro era tão difícil para a situação, que Marcelo Ramos, ainda que mal vestido como candidato de oposição, conseguiu a liderança nas pesquisas em dois momentos na disputa com Arthur Neto.

Ramos perdeu uma oportunidade de ouro de conquistar o poder municipal. Deixou-se sitiar por uma campanha mal projetada e mal dirigida, em consequência de suas próprias carências. Não conseguiu escapar da equação primária que lhe foi imposta pelo adversário, no caso da operação Maus Caminhos e do apoio do governador José Melo a seu nome. Mais raivoso do que inteligente, escorregou nas respostas e não identificou as fantásticas fraquezas do candidato contrário e da administração que representava em campanha. Não foi capaz de confrontar as adesões que recebeu com os apoios de seu adversário, iguais ou bem piores do que aqueles que frequentaram seu palanque.

Nessas circunstâncias, não tenho a menor dúvida, Rotta nadaria de braçada e teria tudo para eleger-se prefeito de Manaus. Com o deputado do PMDB eleito, em primeiro mandato, a ser cumprido, ou com a possibilidade de renová-lo, Eduardo Braga não teria concorrente no seio de sua coligação, como candidato ao governo em 2018. Com Arthur Neto, o quadro mostra-se no mínimo incerto, porquanto os olhares do tucano de bico longo já se voltam seduzidos pela alternativa de disputar o poder máximo no Estado. Ele e quem desfruta de sua maior intimidade, além de amigos e correligionários mais próximos, tenha o adversário que tiver, hoje ou amanhã, ao seu lado ou distante. De igual modo, quem priva do círculo de relações da atual primeira-dama do Município, Elizabeth Valeiko, já consegue vê-la seguindo os passos de Nejmi Aziz, com a aspiração de alçar-se à primeira-dama do Amazonas, fato que impulsionará com vigor a disposição desde sempre alimentada por seu companheiro prefeito.

Foi enorme o desacerto de Eduardo Braga, creio que incorrigível, na composição política que firmou com Arthur Neto. Uma aliança condenada por eleitores de ambos e que pode mostrar-se desastrosa para os projetos e sonhos do senador de retornar ao poder. Com Rotta eleito, encerrada de forma melancólica a carreira política do prefeito, Braga não teria opositor de peso. Arthur, sistemático e obstinado, sempre foi adversário perigoso, bem mais difícil com o poder da máquina nas mãos e com os recursos que lhe são inerentes.

Pragmático por excelência, no frigir dos ovos, quem sabe se Braga não optará pela renovação de seu mandato como senador, o que não será nada fácil, ou mesmo por uma candidatura a deputado federal, reconhecendo-se inviável numa disputa ao governo. Não custa lembrar que um mandato legislativo federal concede foro especial, por prerrogativa de função, uma condição nada desprezível, especialmente quando a Lava-Jato pode a qualquer momento bater à porta do titular do privilégio.

Agora, ‘consummatum est’, não adianta chorar sobre o leite derramado. É esperar para ver.

paulofigueiredo@uol.com.br

Deixe um comentário