Ladrão é ladrão e Mané é Mané

 

Confesso que perdi a forma para acompanhar os Jornais da Noite de todas as emissoras. Quando eu era garoto, os meninos chegados nas coisas do alheio eram chamados de punguistas. Quando cresci um bocadinho, o Stênio (Neves) começou a tratar os meninos danados por pivete, como mandava o dicionário: menino esperto, menino que pratica pequenos furtos.

Um dos punguistas era o Itamaraty. Jogava bola conosco na Praça São Sebastião e na calçada da Santa Casa. Era mal-educado, chato e muito diferente do Cocal. Entre as peladas da manhã e as da tarde, o Itamaraty dava umas beliscadas no comércio e nos mercados. Um dia ele ciscou pelos tratores do T. Loureiro, na Rua José Clemente canto com a Joaquim Sarmento. O vigia, um velhinho gente boa, havia saído e não informou ao Itamaraty para ele levar as boas maneiras dele para outro quarteirão. O garoto foi dormir no meio dos tratores e o novo vigia, um arigó, grosso como beira de sino, falou:

– Se aparecer para dormir ou mexer, não vai acordar. Some!

O mal educado foi dormir no meio dos tratores e o arigó sangrou-o, como se faz com porco. Enfiou a faca na parte de trás do pescoço do Itamaraty. Acabou aí a era dos pivetes.

O Cocal era um descuidista. Caboclo baixo, gordinho, engraçado e adorava entrar na casa dos outros para roubar no descuido. Nunca bateu em ninguém e jamais tocou em arma. Quando roubava, seu organismo se fantasiava de Amigo da Onça e o castigava com uma descomunal dor de barriga e ele defecava na casa do roubado. No outro dia, o Naldo Barbosa, o Sherlock da época, ia até a casa do Cocal e pegava o furto de volta, entregando ao surrupiado. O Cocal tomou umas canas e foi assaltar na Rua Tapajós, logo onde o Gorgonha era o Xerife. O simpático Negão disse para o Cocal: Vai pular o teu carnaval em outro clube que neste aqui tu não vais te criar. O Cocal não ouviu o Gorgonha e foi assaltar no beco. Levou um tiro e saiu pulando os quintais e desmaiou nos fundos da minha gráfica. Não sentiu que o seu sangue estava indo embora e morreu com uma tremenda hemorragia. O Cocal entrou na casa do marchante João Magalhães, roubou, defecou, embrulhou as fezes em um jornal e guardou no congelador da cozinha.

Vieram muitos outros: o Osga, o Parazão e o Monstro. Pessoas normais que se transformavam quando a noite chegava. O Osga era um “fifi” (homossexual) que subia em parede lisa e isso o entregava. O Parazão, lavava o Gordini do meu pai e do Sr. Magalhães pela manhã, e começou a usar arma para assaltar, à noite. Morreu. O Monstro pegou uma cana boa e quando saiu do Casarão, foi na nossa oficina para ver quem era o bom de briga. Desafiou o Kako, que já sabia de jiu-jitsu o suficiente para ser um faixa preta de hoje ou um faixa marrom da época. Enfiou uma chave de fenda no braço esquerdo do Kako e ficou sem o movimento das pernas, dos braços e surdo dos dois ouvidos, o nariz do monstro nem o Pitangui consertaria. Cheguei atrasado e ainda bati um pênalti na cara dele e deixei o Monstro ir para mais uma temporada na Penitenciária.

Esses eram os bandidos que víamos e até convivíamos. Podemos dizer que o pivete roubava até vinte dólares. O descuidista até

mil reais.
Ainda vimos, nos tempos de faculdade, os crimes do colarinho verde e outras danações. Crimes e roubos de milhões e bilhões só víamos no Cine Avenida e no Odeon.

Aí o crime se profissionalizou.

O Ronald Biggs, executor do assalto do século XX na Inglaterra, está mais pra trombadinha do que para assaltante no mesmo Rio de Janeiro em que o Ronald se escondeu no paraíso de Copacabana.

Abro a televisão e vejo assaltos nos valores mais variados. Uma coisa fica bem clara: só é considerado ladrão aquele que rouba acima de dezoito milhões de dólares. Os sete homens de ouro, que roubaram o Banco de Roma, em um filme do Cine Avenida, seriam parceiros do Itamaraty e do Cocal, uns pivetes.

O Parazão, o Osga, o Itamaraty e o Cocal jamais imaginariam um roubo de dezoito milhões de dólares. Nem no cinema nós vimos um valor desses. As mães dos nossos larápios sabiam o que seus lindos filhinhos faziam e eram considerados por elas como honrados ladrões. Entendiam que o fruto dos seus trabalhos era o roubo.

O baiano Geddel Vieira Lima, após passar por vários ministérios e pela Caixa Econômica, dentre outros postos por onde o dinheiro fluía, resolveu investir o fruto do seu trabalho no apartamento cedido para seu probo irmão.

A Polícia Federal descobriu esse banco de desinvestimento e acabou com a brincadeira. Aí vem a melhor parte do filme. A mãe do santo disse que seu filho não era ladrão, mas um cleptomaníaco. Caramba! Ela podia falar antes dele assumir todos esses cargos, incluindo a Caixa Econômica Federal. As mães do Parazão, Osga, Cocal e Itamaraty teriam dado com a língua nos dentes muito antes. Estou mareado com tantas danações das nossas autoridades, não só dos políticos. Podem me chamar de Mané até que apareçam os volumes do Geddel, o famoso “Geddelzinho vai às compras”, como o chamava Antônio Carlos Magalhães – Toninho Malvadeza, e eu decida errado. É mais um gênio da nossa atualidade.

Até as mães dos nossos pivetes e descuidistas tinham uma boa ou melhor noção de ética.

Roberto Caminha Filho, economista, está de luto pela Liga

dos Super-Ladrões que nos dirigem e que, para mim, morreram.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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