Inflação brasileira em 2017, uma análise conjuntural

IPCA (Índice de Preço ao Consumidor), criado para medir a variação de preços do mercado para o consumidor final, representa o índice oficial da inflação no Brasil. É calculado mensalmente pelo IBGE desde 1980.

O IPCA fechou 2017 com alta acumulada de 2,95%, resultado 3,34 pontos percentuais inferior aos 6,29% de 2016. É a menor taxa de inflação apurada desde 1998 quando alcançou 1,65%. Os dados foram divulgados na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Indicam, essencialmente, que a inflação contabilizada em 2017, de 2,95%, posicionou-se um pouco abaixo do piso inferior da meta fixada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) para o ano passado, que era de 4,5% (com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos – ou seja: entre 6% e 3%).

O índice reflete o custo de vida de famílias que possuem renda entre 1 e 40 salários mínimos, com base em nove regiões metropolitanas do país. No processo de medição do IPCA o IBGE leva em conta despesas com moradia, alimentação e bebidas, saúde e higiene pessoal, artigos para casa, despesas pessoais, educação, comunicação, transporte e vestuário. A pesquisa é feita em nove regiões metropolitanas (São PauloRio de JaneiroBelo HorizontePorto AlegreRecifeBelémFortalezaSalvador e Curitiba) além dos municípios de Goiânia e Brasília, tendo sido escolhido como alvo das metas de inflação (“inflation targeting”) no Brasil.

O anúncio do IBGE esclarece que, dos nove grupos que compõem o IPCA, o setor de Alimentação e Bebidas foi o que mais contribuiu para conter a inflação. Responsável por cerca de 25% das despesas das famílias, o grupo acusou queda acumulada (deflação) de 1,87%. O resultado decorreu da redução de 4,85% no preço dos alimentos consumidos em casa, com destaque para as frutas (-16,52%), que tiveram o maior impacto negativo (-0,19 ponto percentual). A deflação dos alimentos se verificou como consequência da safra recorde de produtos agrícolas 30% superior a de 2016.

Para o Banco Central, a super safra de 2017 proporcionou ao consumidor adquirir produtos alimentares do setor agrícola mais baratos (-1,87%) do que no ano anterior, situação verificada pela primeira vez desde a implantação do Plano Real.

Se os alimentos contribuíram para reduzir a inflação de 2017, principalmente em razão da safra recorde, outros três segmentos – Habitação (6,26%), Saúde e Cuidados Pessoais (6,52%) e Transportes (4,1%)) – foram os grupos que mais influenciaram positivamente o índice, com contribuição de 2,45 pontos percentuais para a alta do IPCA/2017, que fechou o ano em 2,95%.

Segundo o IBGE, no grupo Habitação, as principais influências da alta vieram de produtos como o gás de botijão, que subiu 16%, taxa de água e esgoto (10,52%) e energia elétrica (10,35%). Para o IBGE o quadro pode ser explicado, em parte, pelo reajuste de 84,31% nas refinarias, “que contribuiu para o aumento no preço do gás de cozinha vendido em botijões de 13kg”. Já a gasolina, com alta de 10,32%, foi o produto que mais subiu no grupo Transportes.

A variação nos preços de Saúde e Cuidados Pessoais foi influenciada pelo aumento nas mensalidades dos planos, que ficaram 13,53% mais caros, e dos remédios (4,44%). “O resultado deve-se ao reajuste concedido pela Agência Nacional de Saúde (ANS), de até 13,55% para os planos de saúde, e pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, de até 4,76%”, informou o IBGE.

 

Inflação por regiões

O comunicado do IBGE, por outro lado, afirma que, das treze regiões envolvidas na pesquisa do IPCA, sete encerraram 2017 com taxas de inflação menores que a média nacional de 2,95%. As duas maiores altas ocorreram em Goiânia e Brasília, ambas com variação inflacionária de 3,76% – resultado 0,81 ponto percentual acima da variação média nacional. Em São Paulo, a taxa subiu 3,63%, em Curitiba, 2,42%, em Recife, 3,31% e no Rio de Janeiro, 3,03%. Já entre as sete regiões com resultados abaixo dos 2,95% da média nacional se destacam Belém, que, com a alta de 1,14%, teve o menor IPCA do país; Belo Horizonte (2,03%) e Campo Grande (2,11%).

 

Expectativas do mercado

Importante observar que a redução da taxa inflacionária de 2017 foi certamente beneficiada pela safra recorde de produtos agrícolas. Cumpre salientar, porém, que a desaceleração inflacionária não reflete exatamente uma melhora da situação econômica do país e das famílias, sentimento generalizado da população; decorre, efetivamente, muito mais da pior recessão da história na qual o Brasil mergulhou em 2015 e 2016.

Puxada por acentuada queda do PIB (Produto Interno Bruto), a soma de todos os bens e serviços produzidos no país, que serve para medir a evolução da economia, de – 3,6% em 2015 e – 3,8% em 2016, o desemprego e a consequente queda de renda, afetou negativa e brutalmente a demanda de bens e serviços. Daí a contenção da escalada dos preços ao consumidor naquele período. Segundo o economista Gustavo Franco, “esse tipo de queda da inflação não é confiável, porque se no futuro a economia se recupera, a inflação volta”. Em 2017 o país já deu sinal de recuperação, registrando índice de crescimento do PIB avaliado em 0,7%, sinal de que, por enquanto, a recessão pode ter sido domada.

Tecnicamente, a inflação deve ser controlada (domada) de forma rigorosa e persistente. Há fatores que, por muito sensíveis, prejudicam de forma negativa, muita das vezes irreversivelmente, os instrumentos de controle. Dentre estes fatores, sobressai-se a má gestão das contas públicas resultante de políticas populistas que induzem o governo a gastar sempre e irresponsavelmente acima de suas reais possibilidades, ou seja, a despender mais do que arrecada.

 

Inflação no mundo

A taxa de 2,95% alcançada no ano passada aproxima-se da média dos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Na grande maioria, registram taxas flutuando em torno de 2% ao ano (Estados Unidos, 2,2035, Grã Bretanha, 3,156%, Alemanha, 1,759%, Canadá, 2,099%, África do Sul, 4,418%, Índia, 3,971%, Japão, 0,498%, México, 6,773%, Rússia, 2,503%, Portugal, 1,466%, França, 1,192%, Itália, 0,897%, Chile, 2,266%, Espanha, 1,66%). A Argentina, com 15,4% acumulado até setembro de 2017, foge a esse padrão.

O economista Osiris M. Araújo da Silva é membro do Conselho Regional de Economia (CORECON), do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos do INPA (GEEA), da Academia de Letras, Ciências e Artes do Amazonas (ALCEAR) e colunista econômico de A Crítica.

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