Estelionato político e eleitoral

“Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”, foi o que disse Tancredi, sobrinho de Don Fabrício, em O Leopardo, obra seminal de Tomasi di Lampedusa. É certo que nenhum dos dirigentes partidários que no Brasil agora mudam o nome de suas siglas inspirou-se no gênio italiano, mesmo porque jamais sequer ouviram falar do notável escritor, levado ao cinema pelo talento de Luchino Visconti. Mas é sempre assim. A arte, como expressão maior da espécie, antevê situações e aproxima fatos e sentimentos, no espaço e no tempo. Num e noutro momento, a falência inexorável do passado, ao lado da vã esperança de que tudo permanecesse como se encontrava.

À trupe, diante do descrédito da classe política e de seus partidos, não restou alternativa, a não ser a de buscar mascarar a realidade, na intenção de mais uma vez enganar os eleitores. Alguém mais esperto encontrou a fórmula na renomeação das siglas, ideia logo abraçada por outros. E assim surgem “novas” entidades políticas, com suas designações antigas entre parêntesis, sob os nomes de Mude (DEM), Progressistas (PP), Patriotas (PEN), Livres (PSL), Democracia Cristã (PSDC), Avante (PT do B) e Podemos (PTN), além de alguns projetos ainda em gestação. Segundo seu presidente, o conhecido senador Romero Jucá, o PMDB deverá perder o P e voltará a se chamar MDB, como nos tempos em que resistia à ditadura militar de 1964.

Mudaram os nomes, mas não seus programas, propostas e quadros dirigentes, muitos circunscritos a meros interesses familiares. Procuraram uma marca, mas continuam militando sob o manto do fisiologismo, sem nenhuma renovação em seus projetos partidários e de poder. A prática é a de sempre, fundada no balcão e em cima do mais escrachado toma lá dá cá, que caracterizam as relações da representação política no Brasil. De mais a mais, continuam todos de olho nas grossas fatias do fundo partidário, instituído com algo em torno de R$ 2 bilhões, retirados a fórceps dos depauperados contribuintes. Uma orgia de gastos com recursos públicos, que poderiam ser empregados na área da saúde, por exemplo, onde falta tudo, do esparadrapo ao álcool hospitalar.

Com propósitos tão rasteiros, espera-se que ninguém se deixe tapear, com as mesmas caras e poses ridículas que se repetirão na telinha da televisão, empolados, com os clichês típicos. Portanto, de nada adiantará substituir nomes por bordões ou sinais distintivos, redundando em diferenças irreais e que nada distinguem. Servirão apenas para aprofundar o abismo que existe entre o discurso, os programas partidários e a prática política, como marca do estelionato eleitoral que deixa como vítima maior a democracia, em nome da qual o poder é constituído.

Resta claro que o objetivo é ludibriar. Vestirão nova indumentária e se apresentarão com novos ares, mas cedo serão identificados. Quem poderá acreditar que o velho PMDB, com Romero Jucá, Renan Calheiros, Moreira Franco, Elizeu Padilha, Jader Barbalho e Michel Temer, dentre outras figuras emblemáticas, será capaz de transformar-se, com a simples exclusão da letra P. Ou que o velho Partido da Frente Liberal – PFL, atual DEM, nascido de uma costela da Arena da época do golpe militar, será capaz de reciclar-se, com iguais ou herdados comandos partidários.

Grave é que em 2018, pelo andar da carruagem, as expectativas não são nem um pouco auspiciosas.

paulofigueiredo@uol.com.br

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