Ecos da caserna

O general Hamilton Mourão pregou o golpe militar. Disse que “ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso”. Informou que há “planejamentos muito bem feitos” com tal propósito. Mourão também mostrou-se indignado com as críticas, a seu ver injustas, que são feitas ao regime militar de 1964.

Inquirido sobre as declarações de seu subordinado, o comandante do Exército, general Villas Bôas, não poupou elogios a Mourão, chamando-o de “grande soldado, uma figura fantástica, um gauchão”. Antes já havia dito que não haveria punição a ser imposta, chegando mesmo a reiterar as admoestações do militar indócil, ao admitir a possibilidade de intervenção das Forças Armadas “na iminência de um caos”, autorizada por mandato constitucional. Evidenciou-se no episódio o papel decorativo do ministro da Defesa, Raul Jungmann, cujas exigências de “medidas cabíveis contra o general faltoso” não mereceram a menor atenção.

Cabe indagar se as inquietações do general traduzem o que pensa a caserna? Tudo indica que sim e que o militar dá eco aos sentimentos dos quartéis. O quadro político, com centenas de atores denunciados por corrupção, a partir do presidente da República, serve de combustível para a insatisfação crescente no seio das corporações militares. Há imagens demolidoras. Não se tem como explicar Rodrigo Rocha Loures, assessor pessoal de Temer, portando mala com R$ 500 mil, flagrado ao sair de uma pizzaria em São Paulo. Em situação bem mais estarrecedora, R$ 51 milhões são encontrados em apartamento cedido a Geddel Viera Lima, ex-secretário-geral da Presidência, homem da copa e cozinha de Temer, fatos documentados em vídeos exibidos pelas principais cadeias de televisão do país.

A realidade agride. Enquanto juízes de Curitiba e Rio de Janeiro condenam com razoável celeridade, em Brasília, no Supremo Tribunal Federal, processos andam a passos de cágado. Sérgio Moro já determinou a prisão de 192 acusados e condenou 107 réus, de um total de 207. Em Brasília, com 6 réus, teve-se a decretação da prisão de apenas 3 deles. Fotografia emblemática do ato de posse de Raquel Dodge, procuradora-geral da República, ilustra as páginas dos mais importantes jornais e revistas do país, com o presidente Temer e os presidentes da Câmara e Senado, Rodrigo Maia e Eunício Oliveira, ainda encastelados no comando do país, mesmo investigados pela Lava-Jato, sob acusação de delitos graves. Em qualquer Nação, minimamente séria, já teriam sido defenestrados, em atos voluntários ou compulsórios.

É na esteira desse caldo de cultura que grande parte da população brasileira já apoia a intervenção militar, como ovo da serpente, segundo manifestações nas redes sociais. A Constituição permite a atuação das Forças Armadas como garantia da lei e da ordem, sempre por iniciativa de um dos poderes do Estado, mas não autoriza o golpe contra as instituições nacionais. Com todas as imperfeições e como valor maior, possa a democracia corrigir os rumos e superar as crises que engolfam os poderes públicos.

Que a história não se repita, nem como farsa e muito menos como tragédia. Com todo respeito pelo patriota, que o contemporâneo general Mourão não reedite seu homônimo de ontem, Mourão Filho, que desceu das montanhas de Minas a caminho do Rio de Janeiro, precipitando o golpe militar vitorioso de 1964.

paulofigueiredo@uol.com.br

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