Dignidade e espírito republicano

                                    Ao longo da história da Procuradoria-Geral da República, ninguém como Rodrigo Janot exerceu a função de chefe da instituição com tamanho espírito público e dignidade. Foi único, não discriminou, não viu distinções. Pela primeira vez na vida da República levou aos tribunais os poderosos, senhores de baraço e cutelo, acostumados ao saque impune aos cofres do erário.

Sob sua responsabilidade, iniciativa ou inspiração, ao prestigiar com determinação a Lava-Jato, foi decretada a prisão de ex-ministros, ex-governadores, senadores, deputados e outros figurões do poder e da economia. Recolhidos ao cárcere lá estão Antônio Palocci, Geddel Vieira Lima, Eduardo Cunha, Henrique Eduardo Alves, Sérgio Cabral e vários peixes miúdos da legião de gatunos. Um ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, foi condenado, e outro, Michel Temer, no exercício do cargo, encontra-se acusado pela prática de crimes de corrupção, organização criminosa, obstrução à Justiça e lavagem de dinheiro. Também na alça de mira do procurador aparecem os atuais ministros Moreira Franco e Eliseu Padilha, encastelados no coração do Palácio do Planalto, junto a outros já defenestrados da administração pública. Joesley Batista e seu irmão Wesley, maiores produtores de proteína animal do mundo, amargam a cadeia, após rescindidos os acordos de delação premiada celebrados com o Ministério Público. Até bem pouco tempo, tais procedimentos seriam absolutamente inimagináveis, uma vez que no país vigia a certeza de que a prisão estaria reservada apenas aos três pês – pretos, pobres e prostitutas, desprotegidos de qualquer amparo político, financeiro e social.

Janot venceu o desafio e sai altaneiro do cargo que ocupou como servidor de carreira da instituição. Temer, derrotado em decisão plenária e unânime do Supremo Tribunal Federal, não conseguiu impedir que o procurador continuasse atuando até o último dia do mandato. Janot suportou felonias, as mais cruéis. Calado, sem ceder à tentação de participar do debate rasteiro, seguiu no desempenho do múnus público exigido pelo elevado cargo que ocupou.

Arrostou a ira de todos aqueles que se consideravam intocáveis, na condição de senhores da República e do patronato brasileiro. Com inusitada frequência, viu-se vítima de agressões torpes do caricato ministro Gilmar Mendes, este sim, condenado pela opinião pública por suas ações como magistrado, insustentáveis à luz do Direito e da Justiça. A estúpida ofensa que Janot recebeu de Mendes – “que saiba morrer quem viver não soube”, citando o poeta português Manuel Du Bocage, bem que poderia ser devolvida ao ministro, que não tem realmente sabido viver, no cumprimento de atribuições funcionais e pessoais as mais elementares. Também, com falsa erudição, socorreu-se do memorável conto de Machado de Assis, “O Alienista”, sugerindo que os atos do procurador já autorizariam sua própria internação, como ocorre com o personagem do Bruxo do Cosme Velho, que internou a si próprio como louco. Somente com efeito bumerangue, talvez o exemplo pudesse ser plenamente aplicado.

Com a participação do procurador Rodrigo Janot, tivemos uma semana rica de acontecimentos que ilustrarão a História do Brasil, a ser contada no futuro. Enquanto o presidente Temer era mais uma vez denunciado pelo cometimento de múltiplos crimes, um ex-presidente, Lula da Silva, comparecia como réu perante o juiz Sérgio Moro, em primeira instância de Curitiba. Na sequência, a prisão de Antony Garotinho, acusado pela Justiça Eleitoral de comprar votos, e dos irmãos Batistas, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Foram dias verdadeiramente inesquecíveis.

paulofigueiredo@uol.com.br

 

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