Desafios tecnológicos. Foguetes do desenvolvimento e Tsunamis imaginários

Há uns 4 bilhões de anos, gotas de uma espécie de óleo começaram a se formar em poças de água morna na superfície daquela terra estéril. As gotas mais competentes em atrair nutrientes cresciam e dividiam-se em filhotes que apareciam cada vez com mais frequência pelo futuro a dentro. Uns dois bilhões de anos depois, a vida explodiu no planeta em milhões de formas diferentes. (Do livro de Kevin Kelly : New Rules For The New Economy).

O homem é uma dessas formas de vida e ao longo de alguns milhões de anos desenvolveu a imaginação, mãe criadora das habilidades para sobreviver e acumular conhecimento para progredir. Descobriu o fogo, interrompeu a vida nômade e dominou a agricultura.

Dez mil anos depois, no século XVIII, fez a primeira revolução industrial, quando mecanizou as atividades artesanais; máquina a vapor e ferrovias. Ao final do século XIX com a energia elétrica; linha de montagem; o automóvel e o petróleo como fonte de energia chegavam a segunda fase dos avanços. Nos anos 1970 computadores, microeletrônica, satélites, fibra ótica e outras, formaram as tecnologias digitais estabelecendo a terceira revolução industrial, cunhada, apropriadamente, de terceira onda por Alvin Toffler (Choque do Futuro, A terceira Onda e Power Shift).

A convergência dessas tecnologias inaugurou a alta velocidade no mundo contemporâneo, cujos resultados foram sintetizados em declaração do CEO da Google. Disse ele: “A cada dois dias o mundo gera em informações o equivalente ao que a humanidade produziu desde seu início até o ano 2003”. Esses números deixam no nosso dia a dia a sensação de estarmos sendo atropelados pelos acontecimentos. É o novo que se junta à diversidade, provoca uma espécie de amnésia coletiva, vai matando o passado e tornando efêmero até mesmo sucessos relevantes. Ninguém mais faz história de forma duradoura. As mudanças frequentes nas listas de “best selers” levando consigo seus premiados autores, parecem comprovar essa crua realidade.

Agora, ainda nem sentou a poeira da terceira onda e os cientistas já anunciam que, na virada do milênio, a quarta revolução industrial ou onda (insisto no conceito de Toffler) deu seus primeiros passos. Se a terceira foi marcada pela convergência das tecnologias digitais. Na etapa atual, a convergência está acontecendo entre as próprias tecnologias digitais com as tecnologias físicas e biológicas.

Já estão em curso inovações a partir da inteligência artificial; da robótica; da internet das coisas (como nós, máquinas fazendo uso da internet, tomam decisões sobre os processos e fabricam outras máquinas); meios de transportes autônomos (sem pilotos) inclusive aviões; impressão em 3D; nanotecnologia; biotecnologia a desimportância do petróleo e outras.

Em 10 anos os chips superarão a capacidade do cérebro humano e até 2025, máquinas inteligentes começam a tomar assento nos conselhos de administração de grandes organizações. É a tecnologia como alimento dela mesma. Já é consenso nos meios científicos, que o mundo está entrando em crescimento exponencial e ao final dos cem anos deste século XXI terá experimentado o equivalente a 20 mil anos de progresso.

Nessas circunstâncias, o inesperado (a nos assustar ou a nos encantar) será a rotina do dia a dia transformando profundamente o “modus vivendi” das nações, empresas e pessoas. O passado, o médio e o longo prazos deixam de ser referências na tomada de decisão e no planejamento, ferramenta que terá de reinventar-se ou obsolescer, como tudo, aliás, principalmente nós, os seres humanos.

Inovações tecnológicas, são resultados da imaginação, do experimento e da educação, aspectos que têm deixado o Brasil em brutal desvantagem desde a largada, com tendência de agravar-se, ainda mais, nessa fase. Avaliação preliminar de 45 países com chances de aproveitarem-se dessas novas tecnologias para progredir, 43ª. foi a posição brasileira, coerente, portanto, com as posições obtidas nas avaliações internacionais de educação, onde o pais não consegue deixar a rabeira.

Os danos são evidentes. Enquanto a indústria dos países de melhor nível educacional já incorporam as tecnologias 4.0, a nossa continua a estagiar na segunda etapa. São pelo menos 50 anos de atraso e, a julgar-se pelo desempenho das nossas universidades no último Ranking mundial, a distância aumentará. Entre as mil melhores o país já teve 49 e hoje são 22. A USP que já foi a 95ª está agora na posição 143. Sem gente preparada o pais não tem como acompanhar os avanços dessa nova etapa tecnológica.

Para piorar, a velocidade das inovações defasam currículos e tansformam universidades e estudantes (mundo afora), em protagonistas de um mundo que não mais existe. Nosso ensino olha para o passado, o que não é um privilégio brasileiro. O problema é que tal situação parece não nos incomodar.

Sem querer comparar, mas citar como exemplo. Os USA entre as 50 melhores universidades têm 39, não dormem em cima desses louros. Na virada do milênio o professor e cientista Josep Bordogna, vice-presidente do Nacional Science Fundation, já alertava: “Não podemos continuar lançando no mercado profissionais obsoletos e despreparados para os novos desafios tecnológicos”. Os engenheiros devem estudar, teraescala, nanoescala, complexidade, cognição e holismo. Complexidade no sentido tecnológico refere-se à ideia de extrema quantidade e diversidade de elementos. A partir dessa constatação, os cientistas criaram a especialidade: engenharia do caos.

“Somos como amebas no meio disso tudo; não conseguimos perceber que diabo é isso que estamos criando. Não estamos no fim da história. Não somos o produto final da evolução. Há algo maior vindo por aí e, eu desconfio, que seja algo espetacular”. (Danny Hillis em The Big Picture)

Segundo os estudiosos, a biologia e suas derivações, estarão no centro dos acontecimentos. Com profundos reflexos sobre a Amazônia. Estamos preparados? É o que pretendo abordar proximamente.

Francisco R. Cruz

frcruz2@uol.com.br

 

 

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