As ruas da memória

As ruas da memória

Paulo Figueiredo

                                    Quanto mais o mundo se desumaniza, quanto mais a sociedade de consumo tritura o ser humano, tornando-o mero objeto de manipulação do marketing, mais me convenço de que a sabedoria está nos poetas. Aqui no Amazonas temos vários e do melhor quilate, representados com excelência por Thiago de Melo, Luiz Bacelar, Aníbal Beça, Júlio Rodrigues Correia, Aldísio Filgueiras e Alencar e Silva, cujos textos me tocam a alma.

É a poesia, desde os primórdios, cantando e interpretando a história, aguçando a sensibilidade e adornando o espírito. Agora mesmo navego novamente na obra do nosso Manuel Bandeira, pernambucano de estirpe, carioca, brasileiro, de ‘Evocação do Recife’, ‘Vou-me embora pra Pasárgada’ e da ‘Última canção do beco’, ao ler as ‘Crônicas da província do Brasil’, coletânea publicada em 1937, um painel crítico ainda muito atual sobre o País, com suas riquezas e vulnerabilidades.

Reeditada neste ano, com atualização ortográfica, nela reencontro o que já dizia o poeta no poema ‘Evocação do Recife’ sobre as ruas de sua cidade e do seu tempo: “Rua da União… Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância. Rua do Sol (Tenho medo que hoje se chame do dr. Fulano de Tal). Atrás de casa ficava a Rua da Saudade… …onde se ia fumar escondido. Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora… …onde se ia pescar escondido”, numa condenação ao hábito de se ficar mudando o nome de ruas tradicionais. Diz sobre o Rio do início do século XIX: “Elas traziam nomes ingênuos tirados de um detalhe topográfico ou do ofício ou do comércio dominante. Era a rua do Sabão, a rua das Violas, a rua dos Latoeiros, a estrada de Mata-Cavalos… Esta (chamada hoje de Riachuelo, na Lapa) quase uma personagem nos romances de Machado de Assis… Em 1857 Francisco Otaviano lamentava num dos seus folhetins do ‘Jornal do Commercio’ terem crismado em rua das Marrecas a rua das Belas Noites, que levava às alamedas ensombradas do Passeio Público”.

Em Manaus veste-se muito bem a carapuça. Basta olhar em volta, com fatos recentes e distantes. Temo que a prática se alastre sem nenhum controle, em homenagem, como sempre, a políticos aventureiros e outros arrivistas. Já há inclusive exemplos muito estranhos.

paulofigueiredo@uol.com.br

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